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Caminho de Santiago de Compostela - resiliência, doação, empatia e amor ao próximo


Tive o privilégio de completar, em três oportunidades, o Caminho Francês de Santiago de Compostela.


O desafio começa no sul da França, na pequena cidade de Saint Jean Pied de Port, e se estende até a cidade de Santiago de Compostela, no noroeste da Espanha, totalizando 832 quilômetros de caminhada.


Caminha-se entre 30 e 35 dias, numa média diária de 25 quilômetros.


Minha primeira experiência foi em 2012, no início de outubro. Naquele momento, o inverno europeu se despedia num amanhecer lento e preguiçoso, em meio a tímidos raios de sol que anunciavam o início da primavera. Levantei a cabeça e encarei a montanha que se verticalizara à minha frente. Eram os pireneus, majestosos e inflexíveis.


Havia somente uma alternativa: começar a caminhar.


Segundo a doutrina cristã, Tiago morreu decapitado, no ano 44 d.C. Seus fiéis seguidores, espanhóis já convertidos, recuperaram seus despojos e os enterraram num bosque, local onde hoje se encontra erigida a Catedral de Santiago de Compostela.


Diariamente, milhares de pessoas, do mundo inteiro, percorrem essas mesmas trilhas, numa intensa e verdadeira jornada de fé.


Fazer o Caminho era um propósito exclusivamente meu. Não pretendia compartilhá-lo com ninguém. Sempre pensei em fazê-lo sozinho, acompanhado tão somente das minhas crenças. Mas, antes mesmo do fim do primeiro dia, essa teoria já ruiu. Um rapaz me aguardava junto de uma bica d’água, seu nome, Mathias. Ele precisava de alguém que o auxiliasse, guardando o cantil que acabara de abastecer. E, em seu alemão clássico, praticamente ordenou que eu o ajudasse.


Conversamos por alguns minutos e seguimos juntos até o albergue de Roncesvalles, onde dormi na companhia de mais 300 peregrinos. Aprendera ali a primeira lição do Caminho: como não compartilhar, ajudar e interagir se todos tínhamos o mesmo propósito?


No jantar daquela mesma noite, conheci Herman, um australiano, e Anemiek, uma holandesa. Caminhamos juntos, com outros tantos que foram chegando, durante os restantes 31 dias. Curamos as bolhas dos pés um do outro, rezamos, choramos, cantamos, dançamos, rimos e compartilhamos comida.


Gesticulamos, entendemos e falamos línguas que nunca tínhamos sequer ouvido. A universalização das nações, dos povos do mundo inteiro, com suas línguas e costumes diversos, parece ser o maior milagre do Apóstolo. Não há peregrino que não entenda um sorriso, um aceno, uma mão estendida, uma ajuda. Não há peregrino que não entenda um “Buen caminho!”


Dia após dia, cansados, com a pele curtida, rosto e roupas suadas, desfraldando nossas bandeiras, carregando nossas mochilas, fomos chegando e espreitando as torres da Catedral.


Sim, completamos o Caminho. A emoção é única e indescritível, não sabíamos e nem queríamos contê-la. Estávamos fortalecidos e curados. A paz reinava em nossos corações.


Compreendemos ali que somos todos iguais, que a paz é possível, que o amor real existe e as guerras são a falta desta paz e deste amor. Entendemos que os sentimentos, as paixões e os valores precisam nascer e renascer dentro de cada um de nós e contagiar o outro.


Essa e muitas outras mensagens que o Caminho nos ensina têm mais de dois mil anos, mas são absolutamente contemporâneas e necessárias, hoje e sempre.


Há mais de 15 anos, trabalho diretamente com cobrança de taxas de condomínio em atraso. Junto da minha equipe, convivo quase que diariamente com problemas e dificuldades que têm origem em questões ligadas ao relacionamento interpessoal.


Ao compartilharmos espaços, como moradores e ou trabalhadores em um condomínio, é fundamental buscarmos a harmonia. Muitas vezes não é fácil, eu sei, mas lanço aqui um desafio. Que cada um faça a sua parte, um esforço pelo bem coletivo? Que tal ser empático, tolerante e resiliente com o próximo?


Afinal, é o nosso lar ou espaço de trabalho e, como no Caminho de Santiago de Compostela, temos sim o mesmo propósito: viver em harmonia e encontrar ali um local positivo para todos, de sorrisos e mãos estendidas.


Construa laços e tenha em seu condomínio um ambiente de força, ajuda e cura; de paz e plenitude.



Alvício Lino Thiesen

Peregrino e CEO na SPS Cobranças

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